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LIÇÃO DE VIDA

Marcos Lima: dos esportes para a organização das Paralimpíadas !

O carioca Marcos Lima está prestes a terminar o trabalho dele no Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, na área de integração. Durante 3 anos ele se dedicou a acompanhar a acessibilidade das arenas, dos locais de competição, ajudando na organização em geral dos Jogos Paralímpicos.
Este trabalho é uma consequência natural de seu interesse por esportes. Aos 33 anos, o jornalista, que é cego desde os 5 anos devido a um glaucoma congênito, sempre foi um apaixonado pela bola, muito antes de saber que existia uma modalidade de futebol específica para pessoas que não enxergam, o chamado “futebol de 5”. “Na verdade, o futebol me escolheu”, afirma Lima. Como jogador, chegou a disputar campeonatos em vários estados brasileiros e até na Coreia do Sul, mas o curso de jornalismo e outras atividades profissionais fizeram com que deixasse a carreira de atleta.
Sua paixão por esportes o levou a participar do projeto “Esquiando no Escuro”, em 2008, tornando-se o primeiro cego brasileiro a esquiar na neve, o que ocorreu nas montanhas da República Tcheca. “A ideia surgiu da vontade de mostrar que o problema não está na deficiência, mas na acessibilidade”, explica. “O que eu quis mostrar com o esqui, antes de qualquer possibilidade de me tornar um atleta de inverno, é que, com acessibilidade, com estrutura, a gente pode fazer qualquer coisa. O esqui foi um pouco desse recado para as pessoas. Fizemos uma coisa difícil porque teve estrutura, então dá para fazer as coisas mais fáceis também”, afirma Lima.
Esquiar na neve também teve outra consequência: por causa de um vídeo da experiência postado no YouTube, conheceu sua atual mulher, a romena Beatrice. Ela viu a façanha, se interessou, começaram a conversar por MSN… e estão juntos até agora. Ainda no campo esportivo, ele foi um dos responsáveis pela criação da URECE Esporte e Cultura, cujo trabalho a Revista Reação mostrou em sua edição de maio/junho de 2015. “Era o nosso sonho fundar uma associação, gerir nosso futuro enquanto atletas. A gente tinha em mente profissionalizar o esporte entre atletas com deficiência. O paradesporto no Brasil hoje é bastante profissional. A entidade trabalha no esporte de base, na formação de atletas. Nosso objetivo foi sempre esse: dar condições para que os atletas pudessem competir e que os treinadores, as pessoas que apoiam, pudessem ser remuneradas, que não fosse trabalho voluntário”, conta, lembrando dos 5 anos que esteve diretamente ligado à entidade.
Hoje Marcos está afastado das funções executivas por conta de seu trabalho no Comitê, mas aponta as realizações: “a associação tem 10 anos, fizemos vários projetos muito legais, o meu projeto Esquiando no Escuro foi um deles. Montamos o primeiro time do continente de mulheres cegas, que jogou na Alemanha, enfim, temos projetos bastante inovadores”. A proximidade com o texto o levou a criar o blog “Histórias de Cego”, que teve uma primeira fase de 2008 a 2010, quando uma pane fez com que perdesse todos os textos acumulados, e outra que vai de 2013 até agora - www.historiasdecego.com.br. Há também a página “Histórias de Cego” no Facebook.
Ele também faz palestras, inclusive agora como parte de seu trabalho no Comitê. “Tem muita receptividade, as pessoas estão muito interessadas. Elas não estão acostumadas a ver uma pessoa com deficiência numa posição que não seja a de coitadinho. O que eu tento passar é que minha deficiência, sim, tem muita desvantagem, o mundo é muito visual, mas acima de tudo sou uma pessoa normal, com defeitos e qualidades como todo mundo”, comenta.

Marcos afirma que procura levar uma palavra de otimismo e momentos divertidos: “tenho um formato, mas é muito adaptável, porque eu falo com crianças, falo com adultos, depende muito da intenção de quem me procura. Às vezes é uma empresa multinacional que quer uma palestra para os funcionários ou uma escola, então não tenho uma mensagem fechada”, explica. Outro destaque na vida dele é a coleção de miniaturas de monumentos famosos: “isso é meu hobby, minha paixão. É minha maneira de ver o mundo. Ela começou na verdade com a minha vontade de entender os lugares que eu estava visitando. Eu brinco até que começou como uma coleção de fotos táteis”, conta. Ele passou a ganhar peças de outras pessoas, mesmo de lugares que nunca foi. Hoje em dia tem 470 peças de 67 países, de mais de 220 cidades. “Agora chegou num patamar que é mais difícil conseguir uma peça nova, mas eu quero um dia poder abrir essa coleção para outras pessoas poderem tocar e entender que é possível”, almeja. De seu trabalho atual, Marcos quer que os jogos deixem um legado: “espero que tragam uma mudança da percepção em relação à pessoa com deficiência, que o preconceito dê lugar, não digo nem à generosidade, as pessoas são muito gentis, mas à oportunidade. Que você veja a pessoa com deficiência no esporte, mas também que você a veja trabalhando com você, convivendo com você, que os Jogos Paralímpicos sejam uma porta de entrada para essas pessoas na sociedade”.
E o futuro ? “Meus planos são entregar os Jogos Paralímpicos com resultados que atendam as expectativas. O que eu quero é poder continuar conversando com as pessoas, tocar quem sabe, até de uma maneira mais profissional, o “Histórias de Cego”, levar as palestras para um maior número de interessados e empresas. Os Jogos Paralímpicos são o início, a mola propulsora de muita coisa legal que pode acontecer”, conclui.



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