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Você está: Edições / Edição nº 111

CULTURA

Lançamentos de livros trazem reflexões sobre pessoas com deficiência

O mês de junho marcou o lançamento de dois livros que tratam de experiências pessoais, mostrando como os autores encaram a questão, sob pontos de vista diferentes: de quem acompanha e de quem tem uma deficiência.
O primeiro é “O que é que ele tem”, da cantora Olivia Byington, publicado pela editora Objetiva. Ela conta sua trajetória de vida com o filho mais velho, João, hoje com 35 anos, que tem Síndrome de Apert, uma doença genética rara, cuja principal característica é o fechamento prematuro dos ossos das mãos, dos pés (o que pode levar à fusão de dedos) e do crânio, o que pode comprimir o cérebro. Causa ainda exoftalmia (olhos saltados), complicações buxo-maxilo-faciais e superprodução das glândulas sebáceas. Ela tinha 22 anos quando ele nasceu.
O nome do livro remete a uma pergunta que ela ouviu durante toda a vida, assim como seus outros 3 filhos, entre eles o escritor e ator Gregório Duvivier, que inclusive escreveu a orelha da obra. Nele, Olívia conta sua própria vida e a de João, mas passa longe de descrever uma história de superação ou autopiedade. Ela enfatiza o amor pela diferença.
Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Olívia afirmou que o livro “é um relato sincero da história de uma pessoa bem-sucedida que foi muito apoiada pela família. Pode servir de apoio para quem vive com alguém que esteja fora do esperado, seja qual for a deficiência. Bastam compreensão, paciência, muito amor e generosidade".
Para ela, não foi uma obra fácil de ser escrita, inclusive porque precisou reviver sentimentos que nem sempre eram bons e atitudes que hoje ela julga não terem sido corretas, como as 20 cirurgias a que João foi submetido durante a vida. Na época, as informações sobre a síndrome eram poucas e ela teve que lidar com essa situação inesperada da qual não tinha nenhum conhecimento, além de enfrentar a rejeição e exclusão escolar, entre outros problemas.
A figura que resulta do livro é de um João muito bem-humorado, amoroso, que adora veículos, sabe de cor todas as linhas de ônibus e anda de bicicleta pelo Rio de Janeiro, onde moram. Ele está sempre no Facebook e namora Ana Clara, que também tem a síndrome. “Se você acha que vai encontrar no livro lamúrias e autopiedade, você não conhece a minha mãe”, escreveu Gregório em sua crônica semanal no jornal Folha de São Paulo. “No começo ela já deixa claro que no fim tudo dá certo. Até porque no começo também dá –quando se começa cercado de amor por todos os lados”, conclui.

Um jornalista sobre rodas

Jairo Marques, repórter do jornal Folha de São Paulo desde 1999, colunista do mesmo jornal e blogueiro do “Assim como você”, além de manter uma página com inúmeros amigos no Facebook, lançou seu primeiro livro - “Malacabado, a história de um jornalista sobre rodas” - pela editora Três Estrelas. Ele é o primeiro jornalista com deficiência, em cadeira de rodas devido à pólio, contraída aos 9 meses, que se tornou conhecido do grande público pela forma de trazer o assunto à imprensa. Por causa do ineditismo de seu trabalho e da importância que assumiu no segmento, foi o entrevistado das “Páginas Amarelas” da Revista Reação Nº 75, de julho/agosto de 2010.
O termo “Malacabado” que cunhou, é apenas um entre muitos popularizados em seus escritos, que trouxeram temas como acessibilidade e inclusão. Recusando o papel de vítima, Marques reúne no livro suas ideias sobre a necessidade das pessoas com deficiência serem vistas sem pena e sem serem consideradas exemplos de superação. Para isso, usa suas próprias histórias de vida, contando casos reais desde a infância, como o da diretora da escola que tentou expulsá-lo por supostamente ocupar o espaço de três estudantes.
"Assumir-se malacabado é, ao mesmo tempo, consequência do cansaço diante de uma sociedade que cobra perfeição e um chamamento à realidade: existirá alguém que possa dizer-se inteiramente acabado, perfeito?", questiona o autor, no prefácio da obra. Já a jornalista Eliane Brum escreveu na orelha: "É um livro para todos, mas principalmente, para aqueles que se agarram à ilusão tão cara neste mundo de que são bem acabados porque têm dois braços e duas pernas que se movem, dois olhos capazes de enxergar, dois ouvidos que ouvem, uma boca que fala".

O mundo do trabalho

Para comemorar os 25 anos da chamada Leis de Cotas, em 24/07, o Espaço da Cidadania lançou o livro “Relatos da Inclusão – Trabalhadores com Deficiência no Setor Metalúrgico de Osasco e região”. A obra mostra casos de trabalhadores e empregadores que desafiam preconceitos e que fazem a região uma das campeãs em inclusão. Na primeira parte são apresentados relatos desses trabalhadores, dos empresários e agentes públicos que trabalharam pelo cumprimento da lei desde o início dos anos 2000, mostrando que todos ganham com a inclusão. Foram levantados em reportagens de diversas televisões, jornais e livros. A segunda parte da publicação traz números da inclusão no setor, documentados por dez pesquisas anuais e sua comparação com os registros nacionais. Complementam a publicação os indicadores do Censo do IBGE sobre a presença quantitativa e nível de escolaridade das pessoas com deficiência residentes nos 12 municípios abrangidos pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco.

“Teatro dos Sentidos” faz temporada no Rio de Janeiro

O Teatro dos Sentidos é uma técnica de encenação criada inicialmente para uma plateia de cegos, mas seu público hoje é composto também por pessoas que enxergam e são vendadas antes da peça começar. Durante as encenações, com textos devidamente adaptados, os atores exploram os sentidos remanescentes da plateia: audição, tato, olfato e paladar.
Criado pela carioca Paula Wenke, graduada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília/DF, com cursos nos Estados Unidos e diretora multimídia, além de professora de interpretação, entre outras atividades, o “Teatro dos Sentidos” não é um grupo na acepção do termo. Para cada espetáculo são reunidos os atores e equipe. “Nosso desejo é justamente conseguir um patrocínio de manutenção para que possamos nos estabelecer como grupo. Assim, teremos possibilidades de atender aos convites internacionais, participar de mais editais, difundir a técnica de encenação pelo Brasil e pelo mundo, criar festivais de Arte Inclusiva, cursos de artes onde a pessoa com deficiência possa ter subsídios e ouros projetos”, explica Paula.
O espetáculo "Feliz Ano Novo de Novo" ganhou o edital Fomento Cidade Olímpica na linha Artes sem Limites e o Viva Cultura, os dois da Secretaria de Cultura da Cidade do Rio de Janeiro. E estreia em 19 de agosto próximo no Teatro Maria Clara Machado na capital carioca. Nesta linha, 50 % da equipe artística deve ser de artistas com deficiência. Ela foi criada durante a gestão do atual ministro da cultura Marcelo Calero, quando ainda era secretário Municipal de Cultura do Rio. Segundo Paula, que o visitou recentemente em seu novo gabinete na capital federal, ele pretende criar uma coordenadoria de arte inclusiva no MINC. Já o espetáculo Imagens de um C(ego) estreia em 8 de setembro no Teatro Municipal Café Pequeno, também no Rio.
Pessoas com deficiência têm ingresso gratuito e acompanhantes pagam meia entrada nos dois espetáculos

Planos

Depois dessas duas temporadas, o objetivo é levar o “Teatro dos Sentidos” para todo o Brasil. Já há aprovação na Lei Rouanet, que autoriza a captação de recursos junto às empresas para aplicação em projetos culturais, para uma temporada em Minas Gerais e duas outras capitais. “Já fomos patrocinados pela CEMIG e Caixa Econômica Federal, sempre obtendo ótimos resultados. Basta que uma empresa se interesse para que possamos fazer um visita e mostrar o projeto” explica Paula. Outro plano, de acordo com ela, “é editar os dois textos num livro, pois ambos os projetos têm como característica textos intensos, com forte apelo emocional e de reflexão. Ao mesmo tempo sempre bem-humorados, divertidos, mas absolutamente poéticos”, afirma Paula.



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