Software leitura de Tela:
Contraste:
Redes Sociais:
Você está: Edições / Edição nº 111

ENTREVISTA

Sidney Lissoni

Maestro e professor, ele é o criador do Método Lissoni de Musicalização e do Método Lissoni de Matemática, inseridos no Programa de Alfabetização Solidária do Rio Grande do Norte e Paraíba, em prefeituras e algumas escolas ligadas ao Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (SIEEESP), proporcionando inclusão através da música

Sempre apaixonado pela música e por tentar entender como as coisas funcionam, Sidney Lissoni é, de formação, técnico em Mecânica de Precisão pelo Senai Suíço-Brasileiro. Também é formado em Arte e Música pela Universidade São Judas Tadeu e em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes. Maestro, ele é especialista em Física da Música e Canto Coral pela Escola Federal de Engenharia de Itajubá/MG, Língua Portuguesa pela PUC-SP, professor Especialista em Alternativas Metodológicas para Aulas Inclusivas com Deficiência Visual e Auditiva pela Universidade Estadual Paulista em Rio Claro/SP, e em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, pela UNESP-SP, quando defendeu a tese com o tema: “A Música Como Ferramenta de Educação Inclusiva – Escrita Musical Lissoni – Método Lissoni de Musicalização”.
Nos anos 80 e 90 criou e produziu vários jingles e trilhas sonoras para grandes empresas, tevê e teatro. Mas foi a partir de 1992 que sua vida passou a ser voltada à inclusão, quando começou a dar aulas de música em um colégio de São Paulo onde, além das turmas regulares, atendia um grupo de 8 crianças com casos de cegueira, baixa visão, Transtornos do Espectro Autista, Síndrome de Down e hidrocefalia.
Hoje, é professor de Arte da Paschoal Carlos Magno, escola da Rede Estadual da cidade de Embu-Guaçu/SP, onde mora há 21 anos. Também é regente da Bateria Superação (grupo musical de 30 integrantes com déficit intelectual e outras deficiências assistidos pela Casa de David), além de ser o regente da Banda da Associação Cultural Bertinho Mandu, regente da Orquestra Lissoni (formada pelos dois grupos), além de dar aulas particulares de música para pessoas com e sem deficiência e palestrar sobre temas como: inclusão, música e educação inclusiva. Otimista, alegre, divertido, sonhador e um verdadeiro estudioso da música e das potencialidades das pessoas com deficiência, Lissoni é um exemplo de dedicação e amor. Em entrevista exclusiva à Revista Reação, o Maestro nos conta mais sobre seu trabalho e seus planos:
Revista Reação - Como surgiu a ideia da Escrita Musical Lissoni ?
Sidney Lissoni - Aos 9 anos, em 1974, passei a estudar no Conservatório Bandeirantes. Durante as aulas de solfejo, a maestrina parecia benzer a todos com aqueles gestos de regência, e a gente tinha que escrever com aqueles “taquinhos de golfe” as músicas que ela cantarolava. As notas eu sabia, mas as durações é que eram o mistério. Passei então a fazer uma série de semicírculos na horizontal que equivalem a um tempo cada um e, conforme ela cantava, eu colocava um traço no início de cada nota. Assim, uma nota terminava quando outra começava, ou mesmo o silêncio. Depois eu as transcrevia para a partitura convencional. Consegui então visualizar os valores e durações das notas. Aí sim eu comecei a aprender. Na verdade, a dificuldade não era musical, e sim matemática. Naquela época fui diagnosticado como disléxico, porém era moda ter dificuldades de aprendizagem e talvez o problema tenha se originado de uma má alfabetização em matemática. Contudo, aprendi a tocar cavaquinho, violão, guitarra, bateria, teclado e outros instrumentos.

RR – Como percebeu que as pessoas com deficiência visual poderiam aprender música de uma outra maneira ?
SL - Em 1992, quando passei a ministrar aulas de música no extinto Externato Pequenópolis para um grupo com 8 crianças cegas e ainda com diferentes características entre si (TEA, Hidrocefalia, Down, DI), eu acreditava que se entendesse como se processa o “colorido” dos sons para uma pessoa com deficiência visual, eu teria uma ferramenta única para minhas composições. Então, procurei na literatura como musicalizar cegos e nada encontrei. Estudei a Alfabetização do Deficiente Visual, alfabetizei-me em Braille, e tentei aprender a musicografia Braile. Esta última, para mim, é muito complicada. Em média são 8 signos Braile para falar de apenas uma única nota. A pessoa lê com as duas mãos, imagina os sons, decora o lido, e somente depois executa a peça. O processo é muito lento, inclusive o da aprendizagem, e deixa um hiato significativo entre a leitura e a execução da música. Naquela época, passei a utilizar aquela ferramenta – semicírculos – só que para os cegos, em relevo, passando a aperfeiçoá-la. Ao longo desses 24 anos ousei muito junto aos meus alunos cegos, videntes, e com outras características, criando também uma metodologia diferente das conservadoras: a Escrita Musical Lissoni (EML) e o Método Lissoni de Musicalização. Somente com a EML o aluno cego lê uma partitura e toca simultaneamente, proporcionando novas sinapses (conexões neurais) que não foram exploradas até então. Lê a partitura com uma mão e toca com a outra ao mesmo tempo. Além disso, é a única em relevo no mundo que realmente serve para cegos e videntes sem necessitar de transcrição ou mesmo que o leitor seja musicalizado ou alfabetizado. A pessoa faz sua primeira leitura instantaneamente.

RR - Como passou da escrita para a formalização do Método Lissoni ?
SL - Eu gravava minhas aulas em VHS e assistia várias vezes a fim de avaliar o processo de ensino e aprendizagem, e também para criar novas situações. Contrariando vários autores renomados, fundamentei meu raciocínio em saber ouvir, ouvir com qualidade, e criar um ouvido absoluto. Percebi então que estava quebrando paradigmas e que teria muito trabalho de pesquisa pela frente. Houve um aluno cego, João de 8 anos, que lia a partitura Lissoni com a mão direita e tocava o teclado com a esquerda, depois ele invertia o processo. Achei que todos poderiam fazer o mesmo e passei a utilizar tal recurso. Depois de aproximadamente um ano, revendo os filmes, notei que os alunos destros passaram a utilizar a mão de apoio (esquerda) em muitas ocasiões como principal. O inverso aconteceu com os canhotos. Isso mostrou-me que passamos a realizar novas conexões neurais que não eram exploradas, até inibidas pela teoria que tudo para os cegos têm que ser linear. Todos eles tornaram-se mais criativos, equilibrados emocionalmente, e tiveram uma melhora significativa no entendimento da matemática, porém não podemos afirmar que foi somente pela música porque havia um trabalho muito grande feito em conjunto com a equipe especializada.

RR - Existem diferenças de aprendizado entre as pessoas cegas e videntes com a utilização do seu método ?
SL - Acredito que tudo o que serve para os cegos têm que servir também para os videntes. Videntes no mais amplo sentido, todos que veem, disléxicos, sindrômicos, autistas, surdos. Assim, tudo o que se cria tem a preocupação de se criar para todos. Partindo desta premissa, tudo é feito para a real inclusão e unificação. Há diferenças de aplicação do método, porque um dos fundamentos é que o professor tem que identificar como o aluno aprende, qual é a memória que ele está utilizando naquele momento, qual é sua bagagem emocional, quais são seus saberes e principalmente seus potenciais. Quando focamos nas características ampliamos a visão para o total das possibilidades e não mais nas deficiências. O Método Lissoni não é uma fórmula mágica, ou uma cartilha que deverá ser seguida a todo o momento. Ele faz com que o professor deixe a ferramenta “Ready Mode” de lado porque nem sempre o que está pronto servirá para todos, faz com que o professor fique atento às necessidades, às respostas inconscientes dos alunos, à sua evolução, e principalmente ao total das possibilidades. A EML é a única no mundo que é feita em relevo, tanto um vidente como uma pessoa com deficiência visual leem a mesma partitura sem necessitar de transcrição para tinta ou para o Braille, e nem mesmo requer que sejam alfabetizados. Crianças de 3 anos conseguem ler partituras simples sem dificuldades.

RR - Pelo método é possível cantar, tocar instrumentos, até onde se pode ir com ele ?
SL - A partitura Lissoni serve para todos os instrumentos, inclusive a voz. Sempre tive a preocupação de torná-la universal para que todos, e em qualquer lugar do mundo, tenham acesso. Tem uma simbologia muito simples, mas completa para suprir todas as necessidades de registros musicais. Duas grandes diferenças e que tornam a Lissoni mais fácil, é que os registros de durações das notas são colocados diretamente nos semicírculos com um traço, indicando o início da nota, e seu término coincide com o início da subsequente, ou do silêncio. Desta maneira, visualizamos o valor real das durações sem precisar decodificar figuras musicais ou signos em Braille. Famílias que têm filhos com deficiência visual costumam durante a fase de pré-alfabetização, escrever seus nomes em relevo, de trás para frente, e em caixa alta. Desta maneira a criança passa a reconhecer algumas letras do alfabeto. Somada esta técnica à cifra musical (nomenclatura em que os acordes – grupamento de notas musicais – são registrados com as letras maiúsculas: A, B, C, D, E, F e G) de maneira estilizada e despoluída ao máximo, chegamos à forma mais simples e eficaz dos registros das notas.

RR - Quais os benefícios da música para as pessoas com deficiência visual ?
SL - A música é benéfica não só para as pessoas com deficiência visual, mas para todos. O fato de trabalhar com diversas áreas do cérebro de maneira que anteriormente não se trabalhava, produz várias sinapses (conexões neurais) que com outros métodos não são feitas. Há casos em que as PcD visuais passaram a ter com certa exatidão a noção de espaço. Desenvolvem-se a acuidade auditiva, o equilíbrio tanto físico como o emocional, a resiliência, além da música combater o preconceito e o isolamento de todas as pessoas com deficiência. Na alfabetização em matemática comumente usam-se materiais concretos para o estudo de grandezas. Com a utilização do Método Lissoni, a representação gráfica é feita a partir das durações dos sons, intensidade, comprimento de ondas e andamentos das músicas.

RR - O que o Maestro aconselha para uma pessoa com deficiência visual que deseja aprender música ?
SL - Costumo dizer que conservatórios, formol, azeite e geladeira têm a mesma função: conservar ! Mas se a pessoa tem facilidade para aprender através de métodos tradicionais deve procurar um conservatório musical, mas atente à forma com que são ensinadas as músicas e técnicas. Se você está aprendendo tudo de ouvido, não precisa de professor. Torne-se um ! Pois a mente que aprende sabe ensinar. Experimente a Musicografia Braille, aprenda a tocar todos os instrumentos possíveis, e experimente também a Lissoni. Utilize as duas ou opte pela escrita que mais lhe agrada. Ouça de tudo com muita qualidade em suas audições. Reserve-se do direito de ser feliz no que ouve e, se o que ouvir lhe agredir, mude a maneira de ver o mundo. “Ouvir é abraçar com os olhos” !


Para compartilhar essa página basta clicar no ícone da sua rede social.


Ligue grátis: 0800 - 772 - 6612
(11) 3873-1525 / Fax: (11) 3801-2195
contato@revistareacao.com.br
Todos os Direitos Reservados a Revista Reação - 2012
by Studio Toro