INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA,
MOBILIDADE REDUZIDA, FAMILIARES E PROFISSIONAIS DO SETOR


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Entrevista Rodrigo Mendes

Fundador do Instituto que leva seu nome, ele elegeu a educação como objetivo de sua vida. Tetraplégico desde 1990, desenvolve projetos focados na redução das desigualdades em relação às pessoas com deficiência

As 18 anos Rodrigo Mendes levou um tiro durante um assalto. A partir daí suas experiências o levaram a se tornar um dos principais ativistas desse segmento. Mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka, além de atuar como superintendente do Instituto, Rodrigo Mendes faz ainda palestras sobre educação inclusiva, diversidade e resiliência, e presta consultoria para diversas instituições privadas e públicas, incluindo governamentais, como é o caso do Ministério de Educação do Governo de Angola.

Em março deste ano ele chamou a atenção ao participar de uma campanha da área de responsabilidade social da Rede Globo – Tudo começa pelo respeito – que o colocou para pilotar um carro de corrida utilizando uma tecnologia que, via estímulos cerebrais, consegue transmitir os comandos ao veículo.

Agora vamos conhecer um pouco mais desse ícone do universo da pessoa com deficiência em nosso País. Em entrevista exclusiva para a Revista Reação, Mendes fala de suas realizações, conquistas e projetos.

 

Revista Reação - Como você resolveu se tornar um militante pela causa das pessoas com deficiência ? Por que decidiu fundar um Instituto ? 

Rodrigo Mendes - Quando adolescente, meu sonho era me tornar médico para promover qualidade de vida e bem-estar às pessoas. Isso aconteceu depois de passar por uma cirurgia no joelho, na época em que jogava futebol. Hoje em dia, de certa forma, meu sonho continua voltado para contribuir com as pessoas, mas em uma escala maior, buscando reduzir a grande desigualdade com relação às pessoas com deficiência. Por isso existe, há 20 anos, o Instituto Rodrigo Mendes.

 

RR - O Instituto Rodrigo Mendes começou sua ação com o objetivo de oferecer a pessoas com deficiência oportunidades de desenvolvimento por meio da arte. Por que e como foi a mudança de foco para a educação inclusiva ?

RM - Comecei a pintar quando tinha 19 anos, logo após ter sofrido o acidente. Essa experiência teve tal importância para o meu processo de reconstrução de autonomia a ponto de me levar a fundar o IRM em 1994. Inicialmente, o Instituto foi concebido como uma escola de artes. Em 2005, o IRM inaugurou uma nova etapa da sua história. Visando colaborar para que a rede pública de ensino brasileira fosse capaz de atender alunos com algum tipo de deficiência na sala de aula comum, criamos um programa de formação continuada sobre educação inclusiva. Em 2007, foi inaugurado o centro de estudos voltado à produção de conhecimento sobre educação inclusiva, realização de consultorias, produção de publicações e promoção de eventos e seminários. Por fim, a mudança determinante e estratégica do IRM foi colocar a educação pública como foco principal de suas ações, lugar até então ocupado pela arte, com a parceria estabelecida junto ao Ministério da Educação em 2011, ano de lançamento do projeto DIVERSA (diversa.org.br).

 

RR - Como você analisa a educação inclusiva no Brasil hoje ? As escolas públicas e particulares têm conseguido fazer uma verdadeira inclusão ?

RM - Ao longo dos últimos anos ocorreu um aumento expressivo de matrículas de estudantes público-alvo da educação especial na educação básica, um crescimento de mais de 56 % em um período de 10 anos - quando comparamos 2004 a 2014, segundo os dados do Censo Escolar. O ano de 2014 foi significativo por conta do lançamento do Plano Nacional de Educação (PNE), que tem como uma de suas metas o acesso universal de pessoas com deficiência à educação. Apesar dessas evidências, há um longo caminho a ser percorrido, e a principal barreira está na visão conservadora e homogeneizadora de educação ainda predominante nas redes de ensino. Esse contexto é observado não só no Brasil, como em outras partes do mundo. Ao visualizar a educação inclusiva não só como uma obrigação, mas como uma oportunidade, espera-se que a escola, tanto pública quanto privada, canalize seus esforços para identificar e eliminar barreiras que transpassam o ambiente físico e a atitude dos profissionais. Dentre elas, a insegurança de alguns educadores, que pode ser desconstruída por meio do investimento em formação continuada; a desintegração entre a equipe pedagógica e especialistas, que pode ser resolvida com uma dinâmica interdisciplinar de trabalho; e as barreiras relacionadas à atitude de toda comunidade escolar, que podem ser suprimidas por meio de espaços de diálogo e reflexão. Também são necessárias a construção de uma rede fortalecida de professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a garantia de acessibilidade dos materiais didáticos, meios de transporte, espaços físicos etc. 

 

RR - Qual tem sido o papel do governo federal como indutor das políticas de inclusão ? O instituto Rodrigo Mendes tem, inclusive, parcerias com o Ministério da Educação. Quais são as perspectivas nesse sentido ?

RM - O poder público é responsável por garantir diversos tipos de apoio necessários à eliminação de barreiras ainda impostas aos estudantes com deficiência no ambiente escolar. Sob uma perspectiva histórica, considerando a evolução da área dos direitos humanos e da pedagogia, foram criadas políticas e legislações brasileiras cada vez mais comprometidos com a garantia da participação de crianças e adolescentes com deficiência na escola comum. Dentre as conquistas mais recentes, ressalto a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008, o Plano Nacional de Educação, de 2014 e a Lei Brasileira de Inclusão, de 2015. Visando ampliar o impacto de nossos programas, o Instituto Rodrigo Mendes tem articulado parcerias com o poder público, como a firmada com o Ministério da Educação em 2011, quando foi lançado o projeto DIVERSA. Sua finalidade foi, e ainda é, disponibilizar os conteúdos desenvolvidos pela equipe de pesquisa do Instituto e apoiar educadores, gestores de escolas, secretarias de educação e especialistas que se sentem desafiados a incluir pessoas com deficiência na escola comum. Atualmente, a plataforma DIVERSA também permite a interação e a troca de experiências entre os usuários.

 

RR - Qual a importância do apoio da iniciativa privada nos projetos do Instituto ? 

RM - Nossos projetos têm sido financiados por meio de investimentos de fundações e institutos ligados ao setor privado. Estamos, também, constituindo um fundo patrimonial voltado a nossa perpetuidade. Nesse sentido, dedicamos esforços para fortalecer nossa relação com os atuais agentes financiadores e, ao mesmo tempo, trazer novos parceiros que viabilizem a expansão de nosso trabalho. Além disso, contribuições pessoas físicas podem ser feitas por meio de nosso site: rm.org.br/doacoes.

 

RR - Quais os principais projetos em curso no Instituto ? 

RM - Em 2017, assinamos termos de parceria para o desenvolvimento de projetos de formação em educação inclusiva. São eles: “Ensino Médio Inclusivo”, em seu segundo ano de realização junto ao Instituto Unibanco e com apoio da Secretaria de Educação e a Secretaria de Direitos das Pessoas com Deficiência de São Paulo; “Diálogos para Inclusão”, com a Fundação Itaú Social; e “DIVERSA Presencial”, com apoio de diversas instituições parceiras, oferecendo formação em serviço para cinco cidades em cinco regiões do estado de São Paulo. Além desses, estão em andamento um projeto junto ao UNICEF (educação física inclusiva), uma parceria com o Movimento Down (biblioteca de materiais acessíveis) e outros voltados para construção de conhecimento por meio do portal DIVERSA, que abriga também uma importante comunidade que discute casos e gera caminhos para a educação inclusiva.

 

RR -  E os planos para os próximos anos ?

RM - O instituto tem metas anuais para impactar cada vez mais educadores por meio do portal DIVERSA e dos projetos de formação, atingindo diretamente estudantes com e sem deficiência. Faz também parte de nossos planos levar conhecimento sobre educação inclusiva para instituições privadas que ainda carecem de repertório e referências sobre acessibilidade e inclusão.

 

RR - Vocês tiveram também uma experiência internacional, em Angola. Como foi a parceria ?

RM - Em 2015, o Instituto Rodrigo Mendes apoiou a elaboração da política de educação inclusiva de Angola. A iniciativa foi realizada em conjunto com o Ministério da Educação daquele país, representantes de outros organismos do governo e da sociedade civil. A primeira contribuição do Instituto Rodrigo Mendes com o continente africano foi, sem dúvida, um marco para nossa história. Nesse caso de Angola, durante os primeiros cincos meses de implementação do projeto, a iniciativa foi organizada em três etapas: imersão presencial para entendimento do contexto, elaboração do texto da política e apresentação do documento final para profissionais de cada província angolana por meio de workshops. A nova política angolana propõe um significativo processo de transformação do contexto atual, caracterizado pela segregação de estudantes com deficiência em escolas e classes especiais, para um modelo inclusivo, em que todos convivem nas escolas comuns.

 

RR - Independente do seu foco, que é a educação, como você analisa a inclusão da pessoa com deficiência hoje na sociedade ? Quais são ainda os principais problemas ?

RM - Podemos dizer que predomina no Brasil uma atitude assistencialista em relação às pessoas com deficiência. Ainda não faz parte do senso comum o entendimento de que a deficiência é resultante de uma combinação de dois fatores: as particularidades de uma pessoa, de ordem física, sensorial e intelectual, e as barreiras existentes na sociedade. A eliminação dessas barreiras é condição indispensável para que se promova a equiparação de oportunidades e a igualdade de direitos. Apesar da existência de uma legislação robusta sobre os direitos dessa parcela da população, ainda temos muito a melhorar quanto à construção de um país inclusivo.

 

RR - E você, pessoalmente: Como foi a experiência de dirigir um carro de corrida usando comandos cerebrais ? Em que medida isso pode, no futuro, ser expandido para outras pessoas com deficiência ?

RM - Além do desejo de conhecer a nova tecnologia que permite dirigir um carro de corrida com comandos cerebrais, minhas expectativas sempre foram aproveitar o potencial da mídia para construir uma mensagem positiva, que ajudasse no avanço da discussão sobre inclusão, indo além de uma abordagem convencional e limitada. Treinei durante três meses, em casa, com um software conectado aos sensores em um capacete. Depois, quando me dei conta, já estava em um carro de corrida, pronto para pilotar com o pensamento. O líder da equipe me perguntou se estava tudo ok e fechou a viseira do capacete. Todo mundo desapareceu do meu raio de visão... Sobramos eu, o carro e a pista... Respirei fundo, me concentrei e dei o comando para acelerar. Agradeço a equipe da Rede Globo por ter me propiciado essa experiência indescritível. Podemos falar de futuro quando destacamos a importância da tecnologia para a construção de uma sociedade mais inclusiva, devido ao seu poder de ajudar a eliminar barreiras. Além disso, é preciso espaços como o da campanha Respeito, da Rede Globo, para promover discussões na mídia sobre a complexidade do processo de redução de desigualdades. Nesse sentido, temos deixado claro que a tecnologia, por mais avançada que seja, não dará conta, por si só, da redução da exclusão. Isso porque a barreira mais significativa imposta às pessoas com deficiência ainda está presente nos preconceitos e na visão limitada que a sociedade ainda alimenta sobre o potencial desse segmento da população. Para que isso mude, é necessário que todos se vejam como parte implicada e que se disponham a reconhecer equívocos, observar julgamentos e mudar atitudes. A vitória será duradoura quando a superação for coletiva.

 

RR - Aproveite para deixar sua mensagem aos leitores da Revista Reação. 

RM - Quero incentivar os leitores a se inspirarem e refletirem sobre a educação inclusiva. No portal Diversa está disponível um acervo de estudos de caso e relatos de experiência sobre o tema. Nesse espaço virtual, todos podem acessar experiências do Brasil e de outros países que têm se destacado por sua consistência e pioneirismo. É um ótimo referencial especialmente para educadores e pesquisadores. Além disso, faço o convite para que os leitores contribuam com a construção de conhecimento e novos caminhos por meio da Comunidade Diversa, que também está em nosso portal.

 

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